Papo de Roda - O pato do flex

Como gato escaldado tem medo de água fria, o brasileiro só aceitou novamente a ideia do etanol quando chegou o motor que queima os dois combustíveis

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
postado em 25/02/2012 09:52 Boris Feldman /Estado de Minas
Quando foi lançado o motor flex (março de 2003), o empresário Sérgio (JAC) Habib, então presidente da Citroën do Brasil, disse que “carro flex é igual ao pato, que nada, anda e voa. Mas faz tudo malfeito...”.

As coisas não mudaram muito, pois ainda não se desenvolveu um automóvel específico para os dois combustíveis. O flex é, na verdade, um “quebra-galho”, um motor projetado para gasolina e adaptado para queimar também o etanol. As fábricas não investiriam pesado no desenvolvimento de um novo motor destinado exclusivamente ao mercado brasileiro, único a adotar essa solução.

O carro a etanol foi sucesso nas décadas de 1970 e 1980 e chegou a representar mais de 90% da nossa produção, mas entrou em decadência, no início dos anos 1990, porque faltou álcool nos postos e porque o carro “popular” (motor 1.0), um sucesso lançado em 1990, só queimava gasolina.

O motor flex é uma extraordinária solução mercadológica, pois queima derivado do petróleo ou da cana e não deixa o motorista dependente do humor dos usineiros. Ele só foi possível, tecnicamente, graças aos recursos da eletrônica, que “ajustam” o motor para queimar os dois combustíveis.

Mas um “ajuste”, pois o motor flex está longe de ser eficiente: a eletrônica varia alguns parâmetros de seu funcionamento, mas há limites físicos a serem vencidos em função das diferenças entre gasolina e álcool. A principal é a octanagem, que exigiria, por exemplo, turbinar o motor para assegurar melhor queima do etanol. Porém, o custo do equipamento inviabiliza a solução.

O flex avançou em nove anos, mas deixa os motoristas inconformados com o elevado consumo e o funcionamento irregular dos motores. Não param de chegar e-mails de leitores reclamando “batida de pino” (detonação) quando abastecem com gasolina. É uma combustão irregular que pode acabar destruindo o motor. As fábricas recomendam, cinicamente, que se abasteça com etanol para resolver o problema. A detonação realmente desaparece (graças à maior octanagem do etanol), mas não é exatamente o que se espera de um carro flex. Ele não teria que funcionar com qualquer dos dois combustíveis? E ainda tem um capítulo à parte, o do famigerado tanquinho de gasolina para a partida a frio. Afinal, que flex é esse?

O consumo é outra trapalhada, pois os automóveis flex rodam hoje menos quilômetros por litro de gasolina que modelos produzidos há mais de 20 anos. Marcha a ré do flex que deixa o brasileiro embasbacado diante de modernos compactos europeus que já quebraram a marca dos 20 km/l, inimaginável nos nossos modelos.

Enquanto o flex for um “quebra-galho”, o Sérgio Habib continua com a razão. Só que o verdadeiro pato, a rigor, é o consumidor brasileiro...

Tags:

Veículos

Encontre seu veículo

Outros artigos

ver todas
24 de agosto de 2014
26 de dezembro de 2013
23 de dezembro de 2013
04 de novembro de 2013
21 de setembro de 2013

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação