Papo de Roda - Dupla insensibilidade

Nem o governo federal nem empresários brasileiros demonstram sensibilidade para a preservação da própria história

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postado em 29/09/2012 11:37 Boris Feldman /Estado de Minas
De um governo que faz do Ministério da Cultura moeda de troco nas negociações para emplacar um prefeito não se pode mesmo esperar sensibilidade para a preservação do passado. De fábricas brasileiras que, ao contrário de suas matrizes, jamais de preocuparam em preservar os modelos aqui desenvolvidos não se pode também esperar nenhum tipo de zelo com sua própria história.

A General Motors, por exemplo, chegou a desenvolver projeto para construir um museu em São Caetano do Sul (SP), recebeu doação de vários automóveis, mas acabou abandonando o projeto e se desfez de todo o acervo. A Ford Brasil não dá a menor pelota para a própria história e quase jogou no lixo precioso arquivo documental dos quase cem anos da empresa no país.

Volkswagen e Fiat, exceções à regra, decidiram resgatar sua história, conservar modelos desenvolvidos no país e sinalizar a possibilidade de abrigá-los num espaço adequado. A rigor, não fossem os colecionadores, a história do automóvel no Brasil iria se perder no tempo e no espaço. No futuro, carros como o Corcel, Belina e Del Rey, da Ford, Opala e Caravan, da GM, modelos só produzidos aqui, seriam identificados apenas em arquivos fotográficos. Sem falar no fora de série, que registra a extrema criatividade e talento do brasileiro: esportivos como Puma, Uirapuru, Miura, Farus ou os jipes da Gurgel, muitos deles exportados nas décadas de 1970 e 1980.

Num país onde não se preserva a história, Brasília é uma das raras capitais que contam (contava...) com um museu do automóvel. No acervo, raros exemplares nacionais e importados, alguns únicos no mundo. Mas o destaque é para os modelos mais significativos da história da indústria automobilística brasileira. Oferece também aos interessados em pesquisas a maior biblioteca especializada do país. Seu criador e curador é o advogado, jornalista e colecionador Roberto Nasser, que batalhou a cessão de um galpão abandonado pelo governo federal e, com sua abnegação e determinação, acabou transformando o espaço – desde 2004 – num relevante ponto histórico e de turismo da capital federal.

No ano passado, Nasser foi surpreendido com uma notificação do governo para desocupar o galpão, destinado a abrigar o arquivo morto da Rede Ferroviária. Desde então, ele defende em todos os gabinetes de Brasília a possibilidade de brecar o despejo do museu. Tentou com autoridades federais, administradores da cidade, políticos de todos os naipes e calibres, em vão. Em setembro, o juiz que cuida do caso determinou que o museu seja lacrado, numa demonstração de dupla insensibilidade: a primeira pelo prejuízo da cidade de perder essa atração única; a segunda, pois, sem acesso ao seu interior, Nasser teme pela integridade dos automóveis, que exigem constante manutenção.

Ainda vai passar muita água debaixo da ponte até que o brasileiro tenha cultura, sensibilidade e respeito ao passado.
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