Ciclovias de BH oferecem grandes riscos aos usuários

Tinta usada em faixas exclusivas para ciclistas da capital representa perigo por tornar piso escorregadio. Posicionamento não segue padrão e falta de continuidade gera risco

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postado em 24/07/2013 13:57 / atualizado em 24/07/2013 15:47 Téo Mascarenhas /Estado de Minas

No quarteirão da Rua Fernandes Tourinho, entre ruas da Bahia e Espírito Santo, ciclista fica entre veículos estacionados e o trânsito intenso - Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS No quarteirão da Rua Fernandes Tourinho, entre ruas da Bahia e Espírito Santo, ciclista fica entre veículos estacionados e o trânsito intenso
Uma das melhores alternativas para ajudar a reverter o caos iminente no trânsito são as ciclovias, com barreira para automóveis, e ciclofaixas, com baixo custo de instalação. Em Belo Horizonte, a louvável iniciativa está sendo posta em prática em doses homeopáticas em pontos distintos. A previsão é de que em uma primeira etapa, até o fim de 2013, 145 quilômetros sejam implantados dentro do Programa Pedala BH da prefeitura, atingindo 380 quilômetros até 2020. O relevo acidentado da cidade não contribui. Para viabilizar sua instalação, trechos mais favoráveis e planos estão sendo priorizados. Outra ajuda é que as bicicletas atuais têm mais tecnologia, com sistema de marchas que facilitam o deslocamento nos aclives, sem depender tanto do “feijão”. Entretanto, alguns problemas começam aí. Nem sempre as partes mais planas da cidade estão em áreas mais populosas com demanda de transporte. Além disso, não existem apoios de bicicletários nem integração com o transporte público.

Na Rua Professor Moraes, moto e carro estacionados na ciclovia - Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS Na Rua Professor Moraes, moto e carro estacionados na ciclovia
ESCORREGADIA
Cidades como Paris e Amsterdã, por exemplo, têm ampla rede de ciclovias e ciclofaixas, com a diferença de que lá existe também ampla oferta de metrô e transporte público de qualidade. Outra diferença é que lá as ciclovias e ciclofaixas não são pintadas como aqui. A tintura, além de poluir visualmente, oferece um risco maior. Quando molhada, ou até mesmo seca, se transforma em um ringue de patinação escorregadio. Outra cidade que adotou a pintura em longos trechos foi São Paulo. Ao longo da Marginal Pinheiros, a ciclovia não pode receber uma “gota de água” que as derrapagens e acidentes acontecem. Em Belo Horizonte, a berrante pintura também reina.


Existe até mesmo a suspeita de que a tinta tenha sido batizada, ou desdobrada para render mais, alterando suas características originais. Talvez isso explique o desgaste prematuro de alguns trechos, como a ciclovia da Rua Professor Morais, nos cruzamentos com a Rua Tomé de Souza e Avenida Afonso Pena. Se a tinta, à base de água e teoricamente antiderrapante e emborrachada, é própria para o piso, semelhante à das faixas de trânsito, que, aliás, também são extremamente escorregadias e avessas a chuva, deveria durar tanto quanto. Agora o pior: a pintura das ciclovias e ciclofaixas não é exigida pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Apenas a sua sinalização. A desnecessária “decoração” em Belo Horizonte tem a desculpa de alertar o usuário, como se isso não fosse uma obrigação ao trânsito.

 

Pintura desgastada e carro barra ciclista na Avenida Américo Vespúcio - Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS Pintura desgastada e carro barra ciclista na Avenida Américo Vespúcio
BERRANTE A cor vermelha indica ao usuário a proximidade e o próprio cruzamento da ciclovia com as vias. A cor verde, também em profusão, não indica nada. Talvez a falta de um cruzamento por perto. Essas mesmas ciclovias e ciclofaixas devidamente pintadas não oferecem risco só para os ciclistas. Os motociclistas também ficam vulneráveis quando são obrigados a cruzá-las. Se já não bastasse o verdadeiro “sabão” das faixas de trânsito brancas, agora as motos também têm que conviver com o “quiabo” das vermelhas e verdes das ciclovias. As entradas e saídas das garagens onde as ciclovias foram pintadas também representam perigo deslizante.


Ciclista tenta passar no cruzamento da Fernandes Tourinho com Bahia - Ramon Lisboa/EM/D.A PRESS Ciclista tenta passar no cruzamento da Fernandes Tourinho com Bahia
Outras indicações, porém, não foram respeitadas. Segundo o presidente da Federação Mineira de Ciclismo de 2003 a 2012, Welington de Souza, o Formigão, atualmente presidente da Associação Mineira das Federações Esportivas, qualquer ciclovia é melhor que nenhuma. Porém, ele ressalta que sua implantação deve ser feita corretamente. Welington participou das audiências públicas de discussão sobre o projeto das ciclovias em Belo Horizonte, sugerindo várias medidas, como pesquisa de demandas e itinerários, além de um programa de informação e educação. Segundo ele, ciclovia não é lugar de caminhada, de estacionamento nem de depósito de lixo. Totalmente favorável à sua implantação, ele não escapou de escorregar e cair mais de uma vez, devido às faixas.


Carro invade ciclovia na Rua São Paulo por causa do espaço reduzido - Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS Carro invade ciclovia na Rua São Paulo por causa do espaço reduzido
As ciclovias também devem obedecer a alguns parâmetros, segundo Welington, para conviver e compartilhar o trânsito com segurança. Devem ficar preferencialmente à direita em vias de mão única, com no mínimo 1,5m de largura, entre a calçada e a faixa de rolamento. Não foi o que aconteceu, por exemplo, na Rua Fernandes Tourinho. Uma situação esdrúxula, que vai ter que ser corrigida rasgando dinheiro público. A ciclovia está entre o estacionamento de carros e a faixa de rolamento. Em vias de mão dupla, uma ciclovia em cada mão de direção. Providência nem sempre adotada, assim como mão e contramão, em uma ciclovia em via de mão única. Outra situação incompreensível é a falta de continuidade das ciclovias, como na Avenida João Pinheiro. De repente acaba e o ciclista é obrigado a entrar no trânsito, ainda por cima à esquerda, sem qualquer proteção.

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