VW Kombi - Coroa de ouro

Velha senhora da indústria automobilística nacional completou cinqüenta no último domingo. Participou da construção do país, encarna espírito viajante e é uma legítima commodity

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postado em 03/09/2007 14:39
<I>Tenho saudade do tempo em que trabalhava dentro da Kombi, que ficava parada na rua</I>, <b>Francisco Moreira, relojoeiro</b>, que hoje trabalha no bar - Marcelo Sant'Anna/EM Tenho saudade do tempo em que trabalhava dentro da Kombi, que ficava parada na rua, Francisco Moreira, relojoeiro, que hoje trabalha no bar
Grande, desajeitada, ultrapassada, perigosa e curtida, pois já tomou de tudo que um motor aceita: só gasolina, só álcool, os dois, diesel e até gás natural. A Kombi completa hoje 50 anos de produção no Brasil e pode ser considerada uma síntese do país para o bem ou para o mal. Difícil imaginar um pedaço de terra que não tenha sido explorado pelos pneus aro 14, que sustentam os 1.297kg do utilitário projetado pelo holandês Ben Pon. Revendedor da VW, em visita à fábrica, na Alemanha, em 1947, Pon observou veículos usados para o serviço interno e teve a idéia. Riscou o papel e projetou a Kombi: um monte de lata com capacidade de carga sobre o chassi do Fusca. Entre testes e o aperfeiçoamento da aerodinâmica até hoje contestada começou a ser produzida em março de 1950, na Alemanha, com chassi 21cm maior do que o do sedã. Três anos depois, passou a ser importada e montada no Brasil, pelo grupo Brasmotor. Em 2 de setembro de 1957, a Volkswagen iniciou a produção de veículos nacionais com ela. O motor era o 1200, com 36cv de potência. A indústria automobilística brasileira iniciou suas atividades um ano antes, em setembro de 1956, com a produção da Romi-Isetta. Nas últimas cinco décadas, mais de 1,4 milhão de unidades da Kombi foram produzidas no Brasil, perdendo apenas para o Fusca (3,3 milhões) e o Gol (5 milhões). Diferente dos outros dois modelos, ela não é somente um veículo, é uma commodity, mas alia charme e simpatia para agradar a viajantes, hippies e descolados.

O relojoeiro Francisco Moreira trabalha em um bar na Rua Capivari, na entrada do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte,mas sente saudade do tempo em que trabalhava dentro da Kombi, ainda estacionada à porta do estabelecimento. A cor do veículo é marrom, mas a ação do tempo e da poeira deixaram-no com um tom abstrato. Durante cinco anos, Francisco cumpriu expediente no interior da Kombi, parada um pouco abaixo, na esquina, próxima a uma casa de jogo-do-bicho. Faz um ano que trocou o modelo VW pelo bar, que durante o dia é relojoaria e mercearia e no turno da noite funciona como boteco e salão de sinuca. Tem cliente antigo que reclama, diz que veio só consertar o relógio e não atrás de papo de bêbado, lamenta.

Resignado, a conversa de Francisco é quase um murmúrio de tão baixa. Sem interromper o conserto do relógio, à luz de uma luminária improvisada em latinha de refrigerante, ele explica que abandonou o trabalho na Kombi devido aos constantes furtos. Quando terminava o serviço, ia de ônibus para casa, no Bairro Eldorado, em Contagem, e várias vezes teve a desagradável surpresa de se deparar com o veículo arrombado ao chegar para trabalhar no dia seguinte. Para compensar o prejuízo causado pelos clientes perdidos devido ao ambiente boêmio da relojoaria-bar, Francisco vende de tudo: lâmina de barbear, tempero, termômetro, cigarro, fita cassete e todas as iguarias cabíveis no recinto. Na Kombi, além de consertar relógios, vendia apenas panelas de alumínio, que continuam sendo comercializadas no bar/mercearia.

Aventureiros
<I>A viagem durou perto de 30 horas, mas talvez tenha sido uma das mais divertidas que já fizemos</I>, <b>José Carlos Mascarenhas</b>, produtor cultural - Maria Teresa Correia/EM A viagem durou perto de 30 horas, mas talvez tenha sido uma das mais divertidas que já fizemos, José Carlos Mascarenhas, produtor cultural
Kombi, aliás, é um carro comercial por essência. Mesmo quando o objetivo não é esse. Há 28 anos, José Carlos Mascarenhas era recém-casado e sua esposa, Eliana, estava grávida de quatro meses. Ele trocou o Passat LS 1978 por uma Kombi quase zero. José Carlos trabalhava com produção de eventos e precisava de um carro grande para transportar materiais. Aproveitando a deixa, a sogra, que é de Montes Claros, no Norte de Minas, estava reformando a casa e pediu que o genro levasse alguns móveis para ela, entre eles uma imensa geladeira, um sofá, várias cadeiras e muitas caixas.

"Saímos de Belo Horizonte às 8h, sob uma chuva torrencial. Perto de Curvelo, uma ponte havia caído e tivemos que pegar um desvio, passando por Diamantina e inúmeros vilarejos e cidadezinhas. Estrada péssima, chuva, buracos, atoleiros e a Kombi seguindo em frente. Lá pelas 16h, quase sem combustível, paramos em Mendanha (distrito de Diamantina), às margens do Rio Jequitinhonha", lembra José Carlos.

Cansados e com fome, o casal dormiu por lá, na Kombi, é claro. "Com muito conforto, apesar das encomendas da sogra", conta. O colchão de espuma, que era usado para evitar que os móveis da sogra arranhassem, serviu como uma confortável cama. Antes do sono, porém, foram confundidos com ciganos, devido à imensa quantidade de móveis. O dono da mercearia queria trocar o material da mudança por pequenas pedras, que jurava ser diamante bruto. Sem escambo e sem conseguirem convencer alguns que não eram ciganos, foram festejados, comeram pratos típicos, assistiram a uma roda de viola, com direito a serrote. "O sujeito mantinha a ferramenta entre os joelhos e passava um arco de violino tirando um som incrível", explica José Carlos. Antes de ir embora, porém, tinha que encher o tanque de combustível e, na falta de gasolina, valeu-se de cinco litros de querosene. Seguiram até o próximo posto, onde foi constatado que o motivo da "sede" era o tanque furado. "A viagem durou perto de 30 horas, mas talvez tenha sido uma das mais divertidas que já fizemos", afirma José Carlos, no melhor estilho on the road, mas ele nunca mais teve uma Kombi e nem encarou outra viagem.

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