A barbada da feira

Kombi é fundamental para o abastecimento da população e é a preferida dos marreteiros, que compram legumes e verduras na Ceasa e revendem nos bairros das grandes cidades

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postado em 03/09/2007 14:50
Fila de peruas Volkswagen comprova que, apesar dos problemas, modelo cumpre proposta - Fotos: Marcelo Sant'Anna/EM Fila de peruas Volkswagen comprova que, apesar dos problemas, modelo cumpre proposta
Manhã de terça-feira, no Bairro Perobas, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Um Uno passa pela Rua 11 anunciando as ofertas da semana de um supermercado da região em uma gravação difundida por uma caixa de som. As crianças permanecem indiferentes, entretidas em um campo de terra batida. Duas moças conversam à porta de uma casa sem reboco. Do outro lado da rua, o portão enferrujado de uma construção de dois andares também com tijolos à vista, sem requinte abre fazendo barulho de lata amassada. De lá sai Cecília Pinho. Não foi o anúncio do supermercado espalhado pelo Uno, nem a conversa das moças, muito menos a diversão das crianças o que tirou Cecília, com blusa de lã, chinelo de dedo e meias, de dentro de casa. Ela está na rua porque escutou o chamado inconfundível vindo de uma Kombi: "Compro toda semana e, quando preciso, deixo fiado". Diferente do som mecânico e oficial do supermercado, a voz que sai da Kombi é ao vivo, emitida ao lado do veículo, por José Oliveira. "É o carro das verduras e legumes baratos aqui na sua rua". Frases diferentes, mas iguais em essência, são gritadas por marreteiros, como são chamados os feirantes que ganham a vida comprando mercadorias na Ceasa e vendendo nas ruas em todas as grandes cidades do Brasil.

José Oliveira, o Zezé, chega todos os dias às 5h à Ceasa, em Contagem, e batalha pelos melhores preços até as 9h, quando ruma na Kombi em direção a um bairro para comercializar os produtos e ganhar o dia. Morador do Novo Progresso, em Contagem, considera que a melhor freguesia é a do Bairro Nova Contagem, que vez ou outra encomenda apetrechos mais sofisticados, como lingüiça, queijos, requeijão, geléia de mocotó e frutas que não são da estação. Para o trabalho, conta com um modelo 1995, aprovado com um sorriso aberto e um sinal de positivo com a mão. Tirou os bancos para alojar as mercadorias: ovos, salgadinhos (daqueles que parecem isopor salgado), mexerica, morango, suspiro, balas e toda sorte de vegetais e legumes. Tem até um ovo que sobra solitário em pé entre dúzias empilhadas, que, segundo Zezé, não cai nem com o balanço da Kombi.

José carrega o veículo e vende para Cecília no Bairro Perobas. Fernando troca a caixa a cada 15 mil quilômetros - José carrega o veículo e vende para Cecília no Bairro Perobas. Fernando troca a caixa a cada 15 mil quilômetros
A Ceasa, aliás, é um paraíso das peruas. Há para todos os gostos, modelos e gerações. Como a Kombi picape 1994 de Fernando Alves Diniz, de 70 anos. Apesar de ter 13 anos de uso, muitos deles transportando mamão para a rede de supermercados Extra, a Kombi de Fernando é um brinco. "Troco o óleo dela todo domingo e a cada 15 mil quilômetros substituo a caixa de marchas", explica a metodologia, enquanto agacha na traseira e exibe orgulhoso o motor realmente em bom estado. Tanto cuidado, segundo ele, só é possível porque está na profissão "por esporte, para não ficar parado dentro de casa". Caminhoneiro aposentado, Fernando chega às 7h à Ceasa e espera a encomenda dos mamões para fazer as entregas. Recebe R$ 50 por carreto para cada supermercado e à tarde e nos fins de semana é sempre procurado por vizinhos para fazer carretos. Conta que já levou cinco geladeiras na caçamba e até 1,5 tonelada de mamão. Só lamenta que a Volkswagen não produza mais o modelo picape.

Porqueira
Entretanto, a Kombi não é uma unanimidade na Ceasa. Amarildo Hudson de Souza tem a metade da idade de Fernando e considera a cinqüentenária uma porqueira. Proprietário de um modelo de 1995, que em dois anos de uso já teve três motores fundidos, Amarildo tem motivo para o adjetivo pouco elogioso e quer outro veículo que não seja um cemitério de motores: "Se eu pudesse, teria uma D-10, F-400 ou D-20". Enquanto não consegue trocar de veículo, usa a Kombi do primo, um modelo de 1990, que foi comprada por R$ 6 mil, R$ 2 mil mais barato que a dele. Amarildo trabalha como marreteiro há 10 anos e atua, principalmente, nos bairros de Betim. Como na Kombi não cabe nada, o segredo é ajeitar a mercadoria bem antes de vender, porque o freguês escolhe muito. Outro truque é deixar tudo pré-embalado para evitar que as "madames" amassem de tanto pegar. Mas, para ter sucesso, o que vale é a vinheta. A de Amarildo é um grito esganiçado com as ofertas do dia, sempre com as últimas vogais ressaltadas: "Quiaboooo, jilóóóó, chuchuuuuu, abacaxiiiiiii".


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