Carros fantasiados marcam história do carnaval em Belo Horizonte

Primeiro carnaval de Belo Horizonte teve desfile de 14 carros alegóricos. Em 2016, Chevrolet Veraneio será rainha de bateria do Unidos do Samba Queixinho

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postado em 03/02/2016 13:50 / atualizado em 05/02/2016 13:51 Thiago Ventura /Portal Vrum



A história do carnaval está estritamente ligada à paixão sobre rodas. Essa máxima resume um pouco da festa desde as primeiras décadas do século XX até os dias atuais nas grandes cidades brasileiras. Em Belo Horizonte não foi diferente e o carro foi elemento chave na cultura carnavalesca da jovem capital.

Em 117 anos de tradição do carnaval belo-horizontino, sempre houve algum veículo no meio da folia. Para 2016, uma Chevrolet Veraneio será rainha de bateria do Unidos Samba Queixinho, enquanto uma Volkswagen Kombi dá o som no bloco Chama o Síndico.

Foto mais antiga do carnaval no Museu Abílio Barreto mostra Francisco de Souza dirigindo um corso em 1914  -  Museu Abílio Barreto Foto mais antiga do carnaval no Museu Abílio Barreto mostra Francisco de Souza dirigindo um corso em 1914


Em consulta aos documentos originais do historiador Abílio Barreto (1883-1957) feitos na década de 1930, o Portal Vrum encontrou relato do carnaval nos primeiros anos de Belo Horizonte. Em 1898, exatos 68 dias após a inauguração da cidade, a festa foi improvisada com apenas alguns foliões mais animados, assim como no período de construção. Mas naquele mesmo ano, a turma decidiu se organizar para realizar o primeiro carnaval 'de verdade' na então Cidade de Minas.

Surgiu a primeira organização carnavalesca de Belo Horizonte: o Club Demônios da Luneta. Em 1899, o grupo programou o carnaval oficial da cidade: os membros do clube exibiram 14 carros alegóricos pelas ruas da capital em meio batalhas de confete e gracejos com as moças. Ou seja, o primeiro carnaval da cidade foi sobre rodas e tração animal!


Chevrolet Veraneio do Grupo Galpão será rainha de bateria no carnaval de 2016 - Guto Muniz/Divulgação Chevrolet Veraneio do Grupo Galpão será rainha de bateria no carnaval de 2016

 

A partir da década de 1910, outro veículo entrou na folia mineira. Os primeiros automóveis de Belo Horizonte foram utilizados pela elite no carnaval. A brincadeira é conhecida como 'corso': carros abertos ornamentados que desfilavam durante os quatro dias do feriado. Quem estava embarcado e foliões a pé travavam disputas com confetes, serpentinas e lança-perfume. Esse tipo de diversão foi comum no Rio de Janeiro, cidade que sempre inspirou o carnaval de BH.

“Era uma diversão para pessoas mais abastadas, afinal quem poderia ter um carro naquela época? O público ‘comum’ ficava de plateia nas ruas. O corso tinha um caráter muito disciplinador, com desfiles planejados e autorizados pela polícia, com roteiros divulgados nos jornais. Essa característica tinha a ver com a noção de ‘cidade planejada’ contra a bagunça do carnaval, algo que agradava elite e autoridades”, conta o historiador Hilário Pereira Filho, do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e doutorando em História pela Unirio. Em sua dissertação de mestrado, defendida na UFMG, o historiador estudou o carnaval de BH entre 1899 e 1936.

Desfile de carros alegóricos em Belo Horizonte nos anos 1920 - Igino Bonfioli/EM Desfile de carros alegóricos em Belo Horizonte nos anos 1920


A presença do carro é tão importante, que a foto de carnaval mais antiga do acervo do Museu Histórico Abílio Barreto é de 1917, de um corso todo enfeitado. Geralmente os veículos faziam um roteiro passando pelas avenidas Afonso Pena e Liberdade (atual João Pinheiro). Além disso, algumas empresas alugavam veículos para curtir o carnaval, enquanto propagandas nos jornais da época exploravam o costume.

Blocos caricatos desfilam fantasiados em 1950 - Arquivo EM Blocos caricatos desfilam fantasiados em 1950


Além dos automóveis, caminhões tinham espaço no carnaval para levar as ‘sociedades carnavalescas’, que organizavam desfiles e promoviam festas e bailes fechados. Os veículos eram ornamentados para divulgar os clubes. Tanto os corsos como as sociedades entraram em declínio a partir dos anos 1940, quando surgiram as escolas de samba e blocos caricatos.

 

Bloco das Pequenas, no Carnaval de 1935, com as moças fardadas de bombeiro - Museu Abílio Barreto Bloco das Pequenas, no Carnaval de 1935, com as moças fardadas de bombeiro

Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo em 1914
 - Jornal Tenentes do Diabo/Acerco Hilário Pereira Filho Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo em 1914


Carros fantasiados


Com a chegada das escolas de samba no carnaval de Belo Horizonte, os aristocráticos corsos ficaram de lado. Os proprietários passaram a curtir a festa em clubes fechados. Porém, a medida que os desfiles das escolas ficaram mais elaborados, os veículos voltaram a integrar a folia.

Os blocos caricatos também utilizavam veículos ornamentados durante a festa em Belo Horizonte, a exemplo das antigas sociedades carnavalescas. O bloco ‘Corsários do Samba levava a bateria a bordo de um caminhão. Nos anos 1970, automóveis transformados em carros alegóricos desfilavam na Praça da Liberdade em meio aos blocos.

Desfile do carro alegórico  Batalha Real, promovido pelos Diários Associados, em 1957 - Arquivo EM Desfile do carro alegórico Batalha Real, promovido pelos Diários Associados, em 1957


Quando as escolas de samba começaram a desfilar na Avenida Afonso Pena, em 1980, mais uma vez veículos foram aliciados. A foto do desfile de 81 exibe uma Chevrolet C10 como abre alas de uma escola.

No final dos anos 1980 e entre 2005 e 2006, houve uma tentativa de retomada dos corsos, com desfiles e batalha de confetes. Clubes de carros antigos desfilavam na Praça da Liberdade, exibindo os modelos históricos e adaptados para carros alegóricos, como essa inusitada Kombi Foguete que aparece nas fotos.

Carnaval de 2005 - Beto Magalhães Carnaval de 2005


Veículos de volta ao Carnaval de BH

Se no passado os automóveis eram restritos à parcela rica da população, hoje alguns blocos do novo carnaval de Belo Horizonte utilizam alguns modelos em seus desfiles. O Chama o Síndico, que vai desfilar nesta quarta-feira é um deles.

Desde o primeiro desfile, em 2012, o grupo utiliza uma Volkswagen Kombi com pintura saia e blusa como carro de som da banda. E também é tradição o utilitário com motor a ar ter algum problema mecânico e precisar ser empurrado pelos foliões...

Desfile de carros alegóricos na Praça da Liberdade em 1972 - Arquivo Público Municipal/PBH Desfile de carros alegóricos na Praça da Liberdade em 1972


Para 2016, outro veículo será homenageado no Carnaval de Belo Horizonte. Uma Chevrolet Veraneio será a rainha de bateria do Unidos do Samba Queixinho. O grupo, que se denomina uma escola de samba de rua, resolveu ‘convidar’ o veículo pela história na cultura da cidade. A Veraneio, batizada de Esmeralda, pertence ao grupo Galpão e já foi utilizada em diversas atividades artísticas.

Carnaval 2005: Desfile de corso carnavalesco com carros antigos  - Beto Magalhães/Estado de Minas - 30/01/2005 Carnaval 2005: Desfile de corso carnavalesco com carros antigos


“Todo anos fazemos algo diferente com a rainha de bateria para divulgar alguma causa. Neste ano, pensamos em colocar a Veraneio para homenagear o Grupo Galpão, que tem um grande trabalho em levar o teatro de rua a tanta gente”, explica o jornalista Gustavo Caetano, fundador do Queixinho.

A escola de samba vai decorar o veículo com uma alegoria surpresa, só revelada no desfile, previsto para a manhã de domingo de carnaval. “Vamos preservar toda a tradição do Galpão, mas colocar um pouco da nossa identidade do samba Queixinho”, adianta Gustavo.

Kombi fantasiada no Carnaval 2006 - Renato Weil/Estado de Minas - 19/02/2006 Kombi fantasiada no Carnaval 2006
Anúncio do jornal Estado de Minas em 1935 explorava o corso - Anúncio do jornal Estado de Minas em 1935 explorava o corso
Museu Abílio Barreto
Carnaval 1917: algumas empresas da capital organizavam seus próprios blocos - Arquivo EM Carnaval 1917: algumas empresas da capital organizavam seus próprios blocos
Desfile de carro alegórico durante o Carnaval de 1987  -  Paulo Filgueiras/Estado de Minas - 05/02/1987 Desfile de carro alegórico durante o Carnaval de 1987
Museu Abílio Barreto
Anúncio no jornal Minas Gerais de fevereiro de 1925 oferece aluguel de carro para o carnaval - Jornal Minas Gerais, 19/02/1925, p. 1. Anúncio no jornal Minas Gerais de fevereiro de 1925 oferece aluguel de carro para o carnaval
Desfile do bloco Caricato Desfile do bloco Caricato "Corsários do Samba" em 1976
Chevrolet C10 abre alas em desfile das escolas de Samba na Afonso Pena em 1981 - Arquivo Público Municipal/PBH Chevrolet C10 abre alas em desfile das escolas de Samba na Afonso Pena em 1981
Kombi dá som no bloco Chama o Síndico - Chama o Síndico/Divulgação Kombi dá som no bloco Chama o Síndico
Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo em 1914
 - Jornal Tenentes do Diabo/Acerco Hilário Pereira Filho Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo em 1914
Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo: ' Dragão Alado', carnaval de 1915 
 - Jornal Carro Alegórico do clube Tenentes do Diabo: ' Dragão Alado', carnaval de 1915


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Tags: carnaval bh história carro veraneio horizonte belo carnaval

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Marco
Marco - 04 de Fevereiro às 12:29
Nos anos 70, os blocos caricatos fizeram de BH ser uma tradição no carnaval. Poeriam ter tido mais apoio para não ter ficado um tempo sem os seus desfiles. Voltaram e espero que o apoio seja como se tem no Nordeste com seus tradicionalíssimos desfiles pelas ruas inclusive aqueles fantásticos bonecos. O bloco Cacarecos de Santa Efigênia, Imigrantes da Abissínia e Os Bocas Brancas é quem poderiam ter voltado. Os Cacarecos era o melhor bloco existente. Nas cores vermelho e branco, tinha um mamute como símbolo.
 
Lucas
Lucas - 04 de Fevereiro às 08:45
Epoca na qual o politicamente correto não vingava. Olha o blackface ai.
 
Marco
Marco - 03 de Fevereiro às 20:04
Alguma dica onde podemos ver fotos dos Blocos CARICATOS NOS ANOS 70?
 
Wilson
Wilson - 03 de Fevereiro às 16:05
Boa reporta gem, mas os carros não se chamavam "corsos". "Corso" era o nome, vindo do italiano, do desfile feito pelos carros. Ainda menino, lembro-me de tomar parte no corso com meus pais, principalmente de subir e descer a avenida Afonso Pena, então toda arborizada com fícus e com o canteiro central onde passava a linha dos bondes.
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