Desigualdade - Por uma vaga na vida

Manobristas de pontos badalados da noite contam as histórias e enumeram os possantes que guiam enquanto trabalham e sonham com carro de luxo

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postado em 08/09/2006 21:49
Kelberth e Heberth atendem a clientes no Porcão e ficam satisfeitos com a oportunidade de dirigir diferentes máquinas - Fotos: Jorge Gontijo/EM - 25/8/06 Kelberth e Heberth atendem a clientes no Porcão e ficam satisfeitos com a oportunidade de dirigir diferentes máquinas
Heberth e Kelberth têm rima suficiente para pisar no palco da churrascaria em que trabalham, esmerilar o gogó e fazer as vezes das duplas sertanejas que embalam as noites de quinta-feira. Mas a sincronia da dupla se restringe ao lado de fora do Porcão, em Belo Horizonte. Heberth Glaysson dá o tom principal e coordena os manobristas, que se apresentam solícitos, abrem as portas dos carros e guiam os veículos dos glutões até as vagas no estacionamento. Kelberth Armstrong é um entre os vários manobristas que aceleram os passos - e os carros - para cumprir os dois minutos e meio considerados suficientes para completar o serviço.

"Existe esse tempo que é ideal, mas é preciso fazer o serviço com excelência", pondera Heberth, com a experiência de quase três anos na função. Com 26 anos, ele sempre foi um apaixonado por carros, tão apaixonado que, aos 16, faltando dois anos para poder dirigir, comprou uma VW Brasília para dar as primeiras voltas. Depois trocou-a por um Chevrolet Monza e mais tarde por um Fiat Tipo. Gostou tanto que hoje está no quarto Tipo.

Vestir a camisa social vermelha, com calça e sapato sociais, além da gravata, é o traje para entrar em um conto de fadas em que Brasília, Monza e Tipo não passam de distantes modelos fora de linha. Os olhos de Heberth brilham quando recita os bólidos que dirige com freqüência durante o serviço.
"Iria ficar até bonito dirigindo uma BMW (320i) dessas lá no bairro São Paulo", Kelberth Armstrong (superior) / "Só vi chegar três ou quatro Ferrari aqui até hoje, mas só duas vezes que os donos deixaram manobrar", Heberth Glaysson

Em coro com Kelberth a dupla lista modelos das alemãs Mercedes-Benz e Audi: "Tem aquele Q7 que apareceu aqui outro dia", ressalta Heberth. Na voz de Kelberth, os BMW são chamadas com intimidade, apenas de "BM": "Vem muito X5 aqui. Acho que é o que eu mais gosto", diz com um pouco de dúvida diante da infinidade de modelos. Sobre os X5 ele revela que a maioria é blindada e diz que é fácil descobrir pelo peso da porta.

A inevitável pergunta sobre as míticas Ferrari traz à tona a frustração de Kelberth e o orgulho de Heberth. "Só vi chegar três ou quatro aqui até hoje, mas só duas vezes que os donos deixaram manobrar", conta Heberth, que está na casa desde a inauguração e foi um dos manobristas que guiou a máquina italiana, sonho de 10 entre 10 fanáticos por carro. "Se chegar uma aqui dá até briga para estacionar", diz em tom de brincadeira Heberth, há 10 meses no emprego e virgem quando o assunto é Ferrari.

Ao posar para foto em uma "BM" 320i, Kelberth Armstrong faz jus ao sobrenome que homenageia o astronauta americano e se imagina chegando desfilando com o carro pelo Bairro São Paulo, na região Nordeste de Belo Horizonte, onde mora. "Iria ficar até bonito", diz. Porém, no fim da noite o sonho termina, a roupa social entra na bolsa e o Armstorng belo-horizontino aterrissa na realidade do ponto de ônibus e da espera por algum ônibus sem o charme das carruagens e que se assemelha às grandes, lotadas e sacolejantes abóboras onde ele pode sonhar com a compra de um carro Palio.

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