Educação - Trânsito sem lei

Experiência holandesa de espaço compartilhado entre veículos e pedestres, sem qualquer sinalização, foi discutida durante o Fórum Volvo de Segurança

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postado em 12/09/2006 22:57 Paula Carolina /Estado de Minas
Em Haren, na Holanda, projeto deu certo - Reprodução da Internet - www.shared-space.org Em Haren, na Holanda, projeto deu certo
Curitiba - A comunicação pelo olhar é a base do funcionamento do espaço compartilhado (Shared Space), idealizado pelo holandês Hans Monderman e adotado em sete cidades da Europa, sendo três na Holanda e as demais na Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca. Implantado inicialmente na Holanda hoje há trechos compartilhados nas cidades de Emmen, Haren e na província de Friesland em 2004, o projeto ficou famoso pelo aparente caos: um trânsito em que circulam de maneira desordenada, à primeira vista, pedestres, automóveis, bicicletas e demais tipos de veículos. Na verdade, as regras são claras e explicam o sucesso do programa, que conseguiu reduzir quase a zero o número de acidentes nas áreas em que foi implantado. O princípio de tudo é o respeito ao ser humano. Na semana passada, Monderman falou sobre a experiência a especialistas em trânsito do Brasil, durante o Fórum Volvo de Segurança no Trânsito, em Curitiba.

O pedestre tem sempre a preferência. Ao deparar com alguém atravessando a rua, o carro pára imediatamente. Outras regras são da preferência, sempre de quem vem da direita, e da velocidade, que é de 30km/h. No mais, não há no que se falar em placas de orientação, sinais de trânsito e muito menos em separação de espaço. Todos convivem juntos e vale a lei do bom senso. A visibilidade tem que ser privilegiada e, assim, a idéia é deixar que os usuários da via se entendam por si sós, cooperando uns com os outros, sem a necessidade de controle. Numa das praças em que foi implantado o projeto, citada como melhor exemplo pelo especialista, circulam 20 mil veículos por dia.

Acidentes

Engenheiro de tráfego e atuante na área de urbanismo desde 1969, Monderman conta que tudo começou há mais de 30 anos. Em 1974, a Holanda, que tinha 15 milhões de habitantes, estava registrando 3,4 mil acidentes por ano. Isso era inaceitável. Então, o governo chegou à conclusão de que era preciso fazer alguma coisa, diz. O inaceitável, no entendimento do holandês, tem tom mais sério. Ele afirma que os acidentes são inaceitáveis exatamente por serem causados pelos próprios homens. Um comportamento que teria que mudar.

Várias medidas foram adotadas, incluindo a criação de barreiras e a separação das ruas com blocos de concreto, mas desagradavam à população. Chamado para elaborar um projeto, Monderman acabou com as barreiras, reduziu a velocidade para 30km/h (máxima para não causar danos sérios a pedestres) e começou a pensar no compartilhamento do espaço. Quanto mais organizado o comportamento do tráfego, mais sujeito a infrações. As pessoas têm que se organizar sozinhas, sem as autoridades, diz. É preciso ter muito cuidado com as normas porque às vezes as pessoas não se encaixam nelas. Mas, quando organizam por si mesmas, fazem melhor do que as autoridades, acrescenta, acreditando que a convivência entre mundos opostos (de veículos e pedestres) tornou o trânsito mais humano.

Na contramão

O princípio parece ser o oposto da tendência atual de se segregar, cada vez mais, os espaços, com a tentativa de criação de faixas exclusivas para ônibus, ciclistas, motociclistas etc. Quando há separação, as pessoas pensam, esse espaço é meu. Sendo compartilhado, têm a consciência de dividir o espaço, explica Monderman. É uma evolução do conceito de preferência. Em vez de isolar a bicicleta em ciclovias, fazer com que ela tenha preferência em relação aos automóveis e, por sua vez, dêem preferência aos pedestres, avalia o diretor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Luís Henrique Fragomeni.

No Brasil, nem sequer conseguimos fazer valer a faixa de pedestres. A princípio, uma situação como essa é de assustar, pois, é uma realidade muito distante para nós. Mas é interessante conhecer para buscarmos um mundo melhor, pondera o diretor de Operações da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, Adauto Martinez Filho.

Salvador Na terceira maior cidade do país, com população de 2,6 milhões de habitantes, já existem locais em que os conceitos de compartilhamento de espaço são adotados, como o Largo 2 de Julho e o Pelourinho. A frota da capital baiana tem cerca de 560 mil veículos e dados recentes indicam que nos últimos 10 anos, o número de mortes no trânsito caiu pela metade. Segundo a Superintendente de Engenharia de Tráfego (SET), Cristina Aragón, é preciso que haja uma inversão de valores no trânsito. O carro, atualmente, é mais importante que a própria vida humana. A partir do momento que o foco principal for o ser humano, o trabalho de conscientização para um trânsito mais seguro e humano será facilitado, afirma.

(*) Jornalista viajou a convite da Volvo do Brasil
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