Conto-do-vigário - Vende-se ilusão

Estelionatários usam classificados para aplicar golpes, como anúncio de venda de carro com facilidade. Crime é obter vantagem ilícita em função de prejuízo alheio

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
postado em 11/06/2008 16:00 Caderno de Veículos /Estado de Minas
Arte de Quinho/EM
João Montsserrat - Estado de Minas

Comprar um carro relativamente novo com entrada e prestações baratas parece um sonho para qualquer interessado. Mas a aparente oportunidade pode se tornar um pesadelo. A ilusão do bom negócio se dá na forma de anúncio em classificados de jornais de grande circulação e oferecem ao comprador ótimas facilidades. Porém, a grande chance se revela, na verdade, uma boa negociação para quem pratica um crime conhecido há tempos e que tem enormidade de variantes: o estelionato.

171
O delito é tratado pelo artigo 171 do Código Penal Brasileiro como: "Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento", e a pena para quem comete é de reclusão, de um a cinco anos, e multa. O golpe do anúncio em jornal, no entanto, é apenas mais uma das formas de realização do crime de estelionato - a venda de veículo automotor está inclusa nessa modalidade - outros, muito conhecidos, são os contos do prêmio ou da recompensa, o do bilhete premiado e o do empréstimo.

O caderno de Veículos do Estado de Minas, por meio de denúncia, realizou uma consulta por um Chevrolet Celta, cujos anúncios apresentavam pequenas mudanças de conteúdo periodicamente. Nos dias 7, 10 e 11 de maio, o classificado apresentou o automóvel como sendo do ano de 2003, completo, 4 portas, sendo a venda à vista ou financiamento com entrada de R$3 mil e parcelas de R$ 260. Em 14, 17 e 18 de maio, o carro foi anunciado como 03/04 e a entrada era de R$2.800 e parcelas de R$ 280. Nos dias 24, 25 e 28 de maio, o classificado voltou a mudar, anunciando o veículo sendo 02/02, entrada de R$ 4 mil e parcelas de R$312. Foi adicionado ainda que o veículo era da cor preta. Em 31 de maio, 1º e 4 de junho foi anunciado da mesma forma dos dias 7, 10 e 11 de maio.

Fictício
Durante a conversa, o vendedor do Celta se identifica como Lucas Mendes. Ele se contradiz quando perguntado sobre a cor do veículo - anunciado como preto nos classificados dos dias 24, 25 e 28 de maio - dizendo que o mesmo é cinza. Pergunto a placa do carro, para fazer conferência dos dados junto ao site do Detran. Porém, a única informação que consta lá são os caracteres (HDB 0035), que não tem multas e autuação, e, curiosamente, sem informações do histórico (município, tipo, marca, cor, ano de fabricação etc.). Em consulta à base de dados do Detran/MG, foi constatado que a mesma não é cadastrada, assim como também é inexistente na Base de Índice Nacional (BIN). O Celta vendido por Lucas, portanto, não existe e o emplacamento com os caracteres passados por ele irão identificar, futuramente, outro automóvel.

Posteriormente, Lucas diz que o município de origem é Contagem. Sem ser perguntado, ele informa a situação do veículo, diz que não está alienado, que comprou à vista por empréstimo realizado em cooperativa e que o que eu pagaria para ter o carro, com os recibos de compra e venda, seria a dívida contraída na cooperativa e o valor que já havia sido pago por ele. Peço para nos encontrarmos para ver o veículo, mas Lucas fala que mora em outra cidade e pede que seja feito contato no outro dia. Insisto em ver o automóvel e ele diz que tem muita gente para vê-lo ainda, que só seria possível combinar um encontro no dia seguinte.

Golpe
José Francisco Graciano, coordenador da área de trânsito da 30ª regional da Polícia Civil, explica que é justamente este tipo de comportamento do estelionatário que pode identificar o golpe. "O veículo tem um preço de mercado e está sendo vendido abaixo dele, se a proposta é extremamente vantajosa, venda parcelada, sem pedido de avalista e basta fazer depósito para segurar a documentação é porque tem alguma coisa errada. A primeira evidência são as vantagens para compra do veículo, e se tentar negociar por telefone, quando não quer ter contato pessoalmente, é porque, provavelmente, aquilo não é lícito", afirma.

Graciano diz ainda que é extremamente complicado prender o suspeito de cometer o delito desta forma. "Normalmente nada ocorre perto de Minas Gerais. É tudo feito por celular, que normalmente não tem registro na operadora. Para que seja realizada a checagem é tudo com ordem judicial e é preciso ter muitos fundamentos para convencer o juiz a dar uma liminar. Se for atrás nada confere, a conta bancária é fantasma, no nome de laranjas, os telefones são comprados com outros nomes. Não se acha ninguém e ninguém nunca viu o estelionatário. É muito complicado", finaliza.
Encontre seu veículo

Últimas notícias

ver todas
10 de janeiro de 2011
18 de dezembro de 2009

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação