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Estado de Minas

Patrícia Alessandra Morita: Evitar acidente é economia

Cada ferido no trânsito custa ao país R$ 38 mil. Gasto com morte é de R$ 281 mil


postado em 06/05/2007 20:45

Medidas simples podem salvar vidas(foto: Haruo Mikami/Divulgação)
Medidas simples podem salvar vidas (foto: Haruo Mikami/Divulgação)
Atitudes simples como aparar o mato poderia evitar atropelamentos, responsáveis atualmente por 19,1% das mortes nas rodovias federais do país, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que avaliou o custo dos acidentes de trânsito no Brasil. A construção de passarelas em vias de grande movimento é outra forma de preservar a vida do pedestre. Em entrevista, a coordenadora adjunta do estudo Impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras, publicado pelo Ipea em dezembro, Patrícia Alessandra Morita, fala das conseqüências dos acidentes para um país que perde R$ 22 bilhões por ano no trânsito.

Como foi feita a pesquisa?
O projeto foi financiado pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), órgão do Ministério das Cidades. Passamos mais de um ano pesquisando o custo dos acidentes, usando a base de dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e alguns dados de polícias estaduais. Então, de acordo com a amostragem fizemos entrevistas com vítimas e parentes, acompanhando o que acontecia depois do acidente. Foram selecionadas, em todo o país, 1.020 pessoas. O resultado foi um gasto de R$ 22 bilhões por ano (medido entre julho de 2004 e junho de 2005), o equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Vários fatores influenciam nesse custo. O mais caro é a perda de produção, pois a maioria das pessoas que se acidenta está em idade produtiva. Sem contar os gastos com saúde, resgate, atendimento hospitalar, remoção e traslado do corpo (em caso de morte).

Os custos mais altos estão associados aos acidentes mais graves?
Sim, mais graves e com mortes. Portanto, é preciso estimular políticas que reduzam a gravidade dos acidentes. A grande vantagem da metodologia que usamos foi o cálculo ao longo do tempo. Não nos limitamos ao momento do acidente. Separamos as vítimas em ilesos, feridos e mortos, conforme a classificação da polícia. E fomos ver os custos. Uma vítima que sai ilesa custa R$ 1.207; um ferido, R$ 38.256; uma morte, R$ 281.216. As estatísticas de trânsito estão subestimadas tanto no número de mortos quanto no de feridos. Muitos ilesos depois apresentam ferimentos e muitos feridos acabam morrendo. A estimativa é de que 6,2% dos feridos no local do acidente morrem depois. Constatamos isso acompanhando as famílias. Se formos considerar os ilesos que depois apresentam ferimentos e os feridos que depois morrem, há aumento de 66% nos números declarados no Brasil.

Que tipo de acidente é mais grave?
A questão dos atropelamentos é muito grave. Representam 3,6% dos acidentes, nas rodovias federais, e 19,1% das mortes. Você vê que o índice de atropelamentos é baixo, mas o de mortes é muito alto, o que torna esses acidentes muito mais graves. É necessária uma política voltada para isso. Também são graves as colisões frontais, que são 4% dos acidentes, mas 24,6% das mortes. Por isso, é importante investir em políticas que reduzam a gravidade dos acidentes. A construção de uma passarela, em torno de R$ 400 mil, já se justifica se evitar duas mortes. É preciso sensibilizar e convencer as autoridades.

O trauma dos que escapam ilesos de acidentes podem se tornar improdutivos?
Com certeza. Chamamos de estresse pós-traumático as seqüelas invisíveis dos acidentes de trânsito. Um trauma forte pode levar à incapacitação. Inclusive, fizemos um seminário em que isso foi abordado. Vimos que esse tipo de incapacitação pode levar a outros tipos de doença, onerando mais. Não chegamos a calcular o custo, mas salientamos sua importância. Outro exemplo são crianças que ficam órfãs. Identificamos várias vítimas. E também dentro das próprias equipes de resgate, que, às vezes, lidam com situações tão chocantes que traumatizam. São profissionais vulneráveis, estão muito expostos e muitas vezes não recebem tratamento adequado. É uma questão ainda pouco explorada no Brasil.

O que deveria ser feito, nesses casos?
Sugerimos mais atenção e a capacitação de profissionais para isso. Nosso foco não foi a elaboração de políticas, mas uma análise de dados para identificá-las. Inclusive, é preciso que sejam estabelecidos novos estudos. Também há projetos em negociação com a PRF para colocação de viaturas ao longo das vias. A presença da PRF não só inibe os motoristas com relação ao cometimento de infrações como reduz o tempo de socorro das vítimas. Há locais em que só muitas horas depois o socorro chega.

Foi feito algum levantamento sobre a origem dos acidentes?
Em outro estudo foi feito o levantamento das condições do local em que ocorreram mais acidentes. Um exemplo: o mato entre as pistas reduz a visibilidade do pedestre. Apará-lo poderia evitar muitos acidentes. Uma política de baixíssimo custo. Outra coisa: as passarelas, muitas vezes, não são usadas. Não se via pessoas nelas. Então atravessá-las é correr risco de assaltos, estupros, etc. Por isso, não são usadas.

A conservação das pistas foi considerada em relação às causas de acidentes?
De acordo com a PRF, 58% dos acidentes são provocados por fatores comportamentais (falta de atenção, excesso de velocidade, sono, embriaguez), e 3,4% são relacionados às condições das vias. O restante é devido a outros fatores. Bem, embora esse não fosse o foco, alguns pontos foram levantados. Vimos trechos em que a altura do acostamento era muito desnivelada em relação à pista. Para usar o acostamento, o motorista poderia provocar um acidente. Vimos também um trecho que havia sido recapeado e estava bom. Mas, no sentido contrário, não tinha sido arrumado, o que poderia provocar outro tipo de acidente, com um veículo invadindo a pista do outro. Há uma negociação com o Denatran e o Ministério da Saúde para se dar continuidade a esse trabalho, com observação dos trechos mais perigosos e as condições das vias, pois não basta levantar os dados, é preciso agir.

Vocês pesquisaram as rodovias que funcionam por concessão?
Fizemos uma comparação dos dados com outros levantados nas rodovias estaduais de São Paulo, em que grande parte é mantida por concessão e, além disso, em geral, a maioria é bem cuidada. Fizemos a identificação de mortes por mil acidentes. Nas federais, a média foi de 54 mortes a cada mil, enquanto nas estaduais de São Paulo, de 33. Outro dado importante: nas rodovias federais, registramos uma morte a cada 18 acidentes; enquanto nas rodovias paulistas, a relação foi de uma morte a cada 30 acidentes.

Há dados de Minas Gerais?
Nas rodovias federais, o custo total em Minas é o mais alto do Brasil. Claro que é preciso considerar também a extensão da malha, que é a maior do país. Mas é disparado o maior custo, R$ 1,085 bilhão, só nas rodovias federais, e cerca de R$ 3 bilhões, juntando-se as estaduais.

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