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Estado de Minas

Festival - Todos os lobos no planalto

Várias tribos de motociclistas se reuniram na capital federal sob a regência de dois ícones: os nova-iorquinos do Orange County Chopper e os canadenses do Steppenwolf


postado em 15/09/2007 18:00

Paul Senior, do Orange County Choppers, desfilou com a moto que tem elementos inspirados nos traços das obras de Niemeyer(foto: Daniel Ferreira/CB - 7/9/07)
Paul Senior, do Orange County Choppers, desfilou com a moto que tem elementos inspirados nos traços das obras de Niemeyer (foto: Daniel Ferreira/CB - 7/9/07)
Brasília - No estande da Yamaha, uma réplica de papelão dos irmãos Sandy e Júnior faz publicidade da Neo CVT, scooter com 114 cm³ de cilindrada. A dupla é ignorada pelos milhares de motociclistas que acorreram ao Autódromo Nelson Piquet, em Brasília, no último fim de semana prolongado. Nem a sombra escura sobre os olhos da filha de Xororó, a grossa corrente no pescoço, a blusa estampada com a asa de uma águia e o sorriso publicitário da cantora despertam a atenção dos homens. Júnior, por sua vez, vestido de preto, com uma rala barbicha e fazendo pose de durão não atrai os olhares das moças. O que interessa, primordialmente, aos milhares de fãs presentes nos três dias do Brasília Music Festival Moto são os integrantes do Orange County Choppers (família que protagoniza programa de tevê no canal a cabo People & Arts, preparando motos, e que criou um modelo inspirado na arquitetura da capital) e John Kay e sua banda Steppenwolf, que se valem do argumento de fazerem seu penúltimo show na longa carreira de 40 anos e último no Brasil.
Tigrona acompanha Tigrão, que está na estrada desde 1965. Cristiano Souto, o Kiu, viajou de BH a Brasília com o pai e mais 10 amigos. Boréu (E), dos Abutres, explica que o lema do motoclube é a liberdade sem preconceito(foto: Evandro Matheus/Especial para o CB)
Tigrona acompanha Tigrão, que está na estrada desde 1965. Cristiano Souto, o Kiu, viajou de BH a Brasília com o pai e mais 10 amigos. Boréu (E), dos Abutres, explica que o lema do motoclube é a liberdade sem preconceito (foto: Evandro Matheus/Especial para o CB)

Os Choppers de Nova York, com tatuagens, braços de fora e roupas em tons escuros, retratam o estilo do momento da tribo das motos e se fundem ao hit do ícone do passado: o filme Sem destino (1969), dirigido por Dennis Hopper e protagonizado por ele e Peter Fonda, que entrou para o imaginário dos capacetes e cabelos rebeldes com a música Born to be Wild, do Steppenwolf. As duas realidades se unem na paixão pela moto e na sensação de liberdade pregada por todos os adeptos das duas rodas.

Paixão que fez Cristiano Souto sair de Belo Horizonte na quinta-feira, às 6h, e encarar mais de 10 horas de estrada até Brasília, pilotando sua Harley-Davidson com motor de 1.450 cm³ de cilindrada com diversas modificações. O estilo de Cristiano é peculiar e lembra o de Paul Junior, o filho mais velho da família que protagoniza os American Choppers: óculos com grossa armação branca, topete armado, anéis e tatuagem. Cristiano faz questão de ressaltar o apelido, Kiu. O pai, também motociclista, viajou no comboio junto com o filho e mais 10. "Ele tem 54 anos, mas desde a manhã não o vejo. Está perdido por aí, aproveitando o dia. Minha mãe não acha ruim, só não vem junto porque considera desconfortável viajar na moto", conta Kiu. Comerciante da área de manutenção industrial, explica que desde pequeno é apaixonado por Harley-Davidson e acredita que a mística da marca vem das músicas e filmes.

Já Tato, Ganso, Gordinho, Cachorrão, Cabelo, Barra e Boréu bebem cerveja sentados sob o sol abrasador de 14h, enquanto aguardam o início do festival e não dão preferência a nenhuma marca de moto. O lema deles é a liberdade. Fazem parte do motoclube Abutres, que, segundo Boréu, prega: "A fidelidade do irmão; lugar em que todos pensam igual". A liberdade onde todos pensam igual, explica melhor Boréu, que é tatuador e pouco conhecido pelo nome de batismo, Éric Schwartz, é não ter preconceito. Ele, por exemplo, conta que já rodou milhares de quilômetros de moto pelo país para assistir a shows das bandas de metal Megadeth e rock Sex Pistols, até a apresentação dos repentistas Castanha e Caju. Dessa vez não precisou viajar, pois é de Brasília. Mas seus colegas do Abutres vieram de diversos estados, a maior parte de São Paulo, onde o clube foi fundado em 1989, e alguns de Santarém (PA). Levaram um ônibus, além das inúmeras motocicletas, filhos e até armaram uma tenda para vender produtos.

Estilo
Apesar dos trajes pouco sutis, os motociclistas são selvagens somente na aparência. Marconsio Duarte Ferreira, o Tigrão, usa toda a indumentária típica da classe: luvas, colete, dezenas de broches, calça de militar, rabo-de-cavalo e um bigode cheio de estilo. Enquanto requebra com as bandas covers que também se apresentaram - Led Zeppelin, Jimi Hendrix, The Police, Lynyrd Skyrnyrd, Creedence, Pink Floyd -, contemporâneas da época em que começou a ganhar a estrada em duas rodas, em 1965, ele lembra do passado: "tinha Vespa, Lambreta e rodava o país todo".

O tempo não tirou o vigor do motociclista, que há um ano é acompanhado pela amiga Patrícia "Tigrona", pilota uma Kasinsky Cruiser Light e participa do motoclube Os Kafajestes. Tigrão é mecânico, segue o lema de não ter preconceito e diz que, além do rocknroll, gosta muito de escutar e dançar um bom bolero. No colete estão estampados os dizeres com seus vícios: mulher, cerveja e rock.

(*) Jornalista viajou a convite do Brasília Music Festival Moto

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