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Estado de Minas

Berlim 20 anos: carros da Mãe Rússia

Como foi o nascimento da indústria automotiva soviética e a exportação de automóveis para o Brasil no pós-queda


postado em 19/11/2009 10:44

(foto: GAZ/Divulgação)
(foto: GAZ/Divulgação)
A indústria automotiva apareceria no país bem depois da Revolução de Outubro de 1917, durante o período do Plano de Cinco Anos, entre 1928 e 1932. Curiosamente, a primeira marca nasceu justamente de um acordo assinado com a norte-americana Ford em 1929, que deu origem a GAZ, Gorkovsky Avtomobilny Zavod, ou Fábrica de Automóveis de Gorky – atual Nizhny Novgorod. Para montar a fábrica e os carros foram trazidos engenheiros e trabalhadores americanos, alguns dos quais ficaram após o fim dos trabalhos, conquistados pelo ideal proletário. Logo depois esses operários seriam vítimas do terror de Stalin.

Se o primeiro carro da GAZ era exatamente um Ford Modelo A, graças a experiência automotiva a marca começou a dar passos maiores, como foi o caso do M1, o primeiro carro com suspensões e amortecedores adaptados às condições de uso locais. O modelo GAZ-61, de 1938, foi um precursor da tendência de carros de passeio todo-terreno. Com tração integral, o elevado modelo poderia transpor alagamentos de até 78 cm de profundidade.

Veja mais fotos dos modelos pioneiros da GAZ e dos populares Lada!

No pós-guerra a marca começaria a produzir os seus modelos mais célebres, verdadeiras limusines. Em 1950, a marca rebatizada como ZIM - Zavodi Imeni Molotova – como homenagem ao Ministro de Relações Exteriores Molotov, lançou o GAZ-12, um três volumes de 5,5 metros para seis passageiros com inspiração norte-americana, criado para ficar logo abaixo dos modelos de luxo da ZIL. Essa inspiração fica clara nos modelos Chaika – gaivotas – produzidos a partir de 1959. Era o carro de funcionários graduados, membros do Partido e, até mesmo, heróis nacionais, como Yuri Gagarin, que desfilavam nas versões conversível, sedã ou perua equipados com um V8 5.5 de 197 cv.

Mais populares eram os intermediários Volga, que até hoje rodam pela Rússia como táxis. O mais reconhecido dos Volga é o GAZ-3102, o sedã produzido no país desde 1982, com linhas retilíneas que foram arredondadas nas extremidades na evolução GAZ-3110. O carro fez sucesso até no cinema, no filme a Supremacia Bourne, em que o espião criado por Robert Ludlum dá início a uma perseguição pelas ruas de Moscou ao volante de uma versão táxi, que, mesmo após castigos severos, continua firme até o final. Até mesmo a antiga KGB e as forças policiais preferiam os Volga, em versões especiais com motor V8 dos Chaika e câmbio automático.

Os mais populares da URSS


Os modelos da VAZ estão mais vivos na memória dos brasileiro, que reconhecem o fabricante pelo nome adotado pela marca em mercados estrangeiros: Lada. Os Lada foram trazidos para o Brasil logo após a abertura das importações, quando ficou claro que não apenas os países comunistas viviam em uma situação de demanda reprimida. Há uma cena no filme “Senhor das Armas”, o contrabandista Yuri Orlov, interpretado por Nicolas Cage, lista os produtos mais exportados da URSS, entre eles o rifle automático AK-47, vodka e poetas depressivos, no que conclui que, afinal, ninguém estava “fazendo fila para comprar os carros russos”. O Brasil foi uma exceção.

Modelo Laika chegou ao Brasil com preços convidativos, a partir de US$ 6.850(foto: Lada/Divulgação)
Modelo Laika chegou ao Brasil com preços convidativos, a partir de US$ 6.850 (foto: Lada/Divulgação)
 

A VAZ, Volzhsky Avtomobilny Zavod, ou Fábrica de Automóveis do Volga, foi criada em 1966 em uma parceria com a italiana Fiat. Esse acordo deu origem a uma planta produtiva com 270 km de linhas de montagem, uma enorme planta industrial que empregava 180 mil pessoas no auge. Como era comum na indústria automotiva soviética, tudo era produzido na fábrica, de vidros a pneus.

O primeiro modelo de 1970 foi baseado no sedã Fiat 124, que se tornou em pouco tempo o mais popular da URSS. Em relação ao modelo original, o carro soviético adotou painéis de carroceria mais espessos, para resistir melhor a corrosão, além de rodar sobre uma suspensão reforçada.

Quando passou a ser importado para o Brasil em 1990, o Laika – 2105 sedã e 2104 station – fez sucesso pelo baixo preço. Até 1995, quando deixou de ser importado, o modelo concorria nas categorias de acesso do mercado, competindo com o ressuscitado Volkswagen Fusca. A campanha publicitária chegava a fazer essa comparação direta, em que o Besouro aparecia coberto ao lado de um Laika, enquanto eram listadas as vantagens do sedã russo, que partia de US$ 6.850, o equivalente a R$ 11.832 em valores da época.

O sedã 2105 e a station-wagon 2104 foram modernizados ligeiramente em 1984, quando adotaram o nome Riva. Componentes como injeção eletrônica e catalisador foram adotas na década seguinte. A manutenção fácil, o baixo preço e a qualidade razoável, fizeram do modelo um sucesso de mercado na Europa oriental e alguns outros mercados, com mais de 5 milhões de unidades vendidas, afora as versões atualizadas, comercializadas até hoje.

Mais moderno era o Samara lançado em 1984, o primeiro carro com motor transversal e tração dianteira da marca. Havias três opções de motores, 1.1, 1.3 e 1.5, sendo que apenas os dois últimos foram importados para o Brasil. Os propulsores eram modernos, com comando de válvulas por correia – em vez de corrente – e câmaras de combustão desenvolvidas em conjunto com a alemã Porsche.

O jipinho Niva, lançado em 1976, se destaca pelas soluções técnicas ainda raras em utilitários do período, como a tração integral permanente e a construção em monobloco. O todo-terreno fez sucesso ainda na Europa Ocidental, onde chegou a ganhar uma versão com capota removível. No Brasil o Niva se destacou pela sua capacidade fora-de-estrada e até hoje é um modelo popular entre os jipeiros. Tanto que foi o último Lada a deixar de ser importado em 1999, já com motor 1.7 com injeção eletrônica e 80 cv de potência no lugar do 1.6 carburado. A volta do modelo é esperada há cerca de dois anos.

Leia a primeira reportagem da série sobre os carros do Bloco Comunista!.

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