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Estado de Minas

Luxo para poucos: como eram os carros da Cortina de Ferro

O aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim evoca os antigos modelos construídos em países do Bloco Comunista


postado em 17/11/2009 19:47

(foto: Musée National de l'Automobil/Divulgação)
(foto: Musée National de l'Automobil/Divulgação)
Junto a produção em massa de automóveis, a ascensão e queda do Bloco Comunista foi um dos acontecimentos que modificaram mais profundamente o mundo ao longo do século XX. No mês em que se comemora os 20 anos da Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989, os mercados automotivos do Leste europeu se encontram em uma situação completamente diferente. É uma região marcada pela produção de carros de sucesso, como o Dacia Logan, vendido no Brasil pela Renault, que evoluiu ao ponto de abrigar exageros, como a grande quantidade de superesportivos exóticos em Moscou.

Veja mais fotos do Trabant!

Na época da Cortina de Ferro era uma indústria para poucos, mas que produziu modelos memoráveis, como o simpático Trabant da Alemanha Oriental. Vão desde carros que eram cópias exatas de banheiras americanas ao melhor estilo “American Way of Life” até veículos alinhados com o que havia de mais moderno, ao menos na época de seus lançamentos. Uma linha comum aos grandes fabricantes é a divisão entre a produção de veículos militares, mais prolífica, e carros de passeio, muitos com tecnologia estrangeira de parceiros como a Fiat, a Ford e, até mesmo, a Porsche. Confira alguns desses fabricantes e carros que marcaram os países do Bloco Comunista.

Símbolo da queda


Tanto quanto as imagens das marretadas certeiras e da confraternização geral, uma cena que marcou o dia da queda foi o fluxo de alemães orientais em modelos Trabant vindos de Berlim Oriental para se deparar com lojas de departamentos e sofisticados BMW e Mercedes-Benz na Berlim Ocidental. Esse choque cultural/tecnológico não é para menos. O Trabant foi o símbolo da DDR, Deutsche Demokratische Republik, ou República Democrática Alemã – RDA –, e de longe o carro mais popular do país, com mais de 3 milhões de unidades produzidas entre 1957 e 1991. Junto com os Wartburg, era a única opção nacional de carro particular na vigiada RDA.

A corrida espacial, que se iniciava com o lançamento do satélite Sputinik, em 1957, inspirou o nome escolhido – Trabant significa satélite. Longe de ser um projeto futurista, o modelo produzido pela Sachering em Zickwau era compacto, com apenas 3,3 metros de comprimento. O motor era de uma simplicidade marcante, um bicilíndrico de 500 cm³ e dois tempos – em que o óleo é misturado e queimado junto a gasolina – com refrigeração a ar e capacidade para gerar pacatos 18 cv. Foram criadas derivações da carroceria, com versão jipe e station wagon.

Modelo serve como elemento de sátira política, como o beijo entre Leonid Brezhnev e Erich Honecker(foto: Divulgação)
Modelo serve como elemento de sátira política, como o beijo entre Leonid Brezhnev e Erich Honecker (foto: Divulgação)


Com uma produção incapaz de suprir a demanda do mercado, a fila de espera para se comprar um Trabant poderia superar com facilidade uma década. Brincava-se que o modelo era o carro mais exclusivo do mundo, já que, além da espera, poucos possuiam um exemplar.

O Trabi, como é tratado pelos seus fãs, ficou eternizado na versão 601 de 1964 que mesmo com a sua mecânica sem válvulas ou bomba de água, ostentava ignição eletrônica, algo incomum na época. O motor um pouco maior – 594 cm³ – Permitiu alcançar os 26 cv e 5,3 kgfm de torque, o suficiente para levar o carrinho de zero a 100 km/h em longos 21 segundos, com uma velocidade máxima de 112 km/h.

Mesmo sem se destacar tecnologicamente, cabe ao Trabant a distinção de ter sido o primeiro automóvel com carroceria produzida em material reciclado a ser produzido em série. Batizado como Duroplast, o material utilizado era uma resina plástica misturada a lã ou algodão descartados, para torná-la mais rígida. Isso se deu menos pelas questões ecológicas – o fumacento motor 2 tempos do carro depunha contra qualquer causa verde – e mais pela estratégia da Alemanha Oriental de não depender do uso de aço, em geral importado.

A queda do Muro também foi o fim dos Trabant, que deixaram de ser produzidos em abril de 1991. Nos últimos tempos ainda tentaram fazer uma versão refrigerada a água com o motor 1.1 do Volkswagen Polo, mas isso não impediu o fim do carrinho.

Mas, dentro do fenômeno da Ostalgie, uma mistura de Ost – Leste – com nostalgie – nostalgia, movimento que valoriza o estilo de vida da antiga Alemanha Oriental, os Trabant são idolatrados até hoje. Uma marca alemã de miniaturas, Herpa, inclusive quer ressuscitar o compacto com a ajuda de investidores. Um conceito Trabant n T foi exibido no último Salão de Frankfurt, em setembro. Essa nova geração poderia ser equipada com propulsão elétrica, uma forma de redimir o antigo Trabi, famoso tanto pelo seu papel histórico quanto pelo grosso rastro de fumaça que costuma deixar para trás.

Leia a segunda parte da série com os carros da Mãe Rússia!.

Leia a terceira parte da série com os carros que simbolizaram o poder e os que viraram piadas!.

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