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Estado de Minas UM AVIÃO PARA CHAMAR DE SEU

Militar reformado constrói avião experimental de madeira

Ex-piloto da Força Aérea Brasileira trabalha há cinco anos na realização do próprio sonho: construir uma aeronave de pequeno porte. Todo em madeira, o modelo, inspirado em projeto italiano, deverá ganhar o céu de Brasília em 2015


postado em 15/10/2013 15:20 / atualizado em 15/10/2013 15:54

Para muitos amigos, foi uma loucura Jorge Canto se dedicar à construção do Whisky IV, todo em madeira de freijó e compensado aeronáutico (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para muitos amigos, foi uma loucura Jorge Canto se dedicar à construção do Whisky IV, todo em madeira de freijó e compensado aeronáutico (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Movido pelos 35 anos de voos em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), o coronel Jorge Canto, 58, decidiu realizar um desejo antigo ao se tornar reservista: construir um avião experimental de pequeno porte. Há cinco anos, ele monta sozinho o modelo de madeira de freijó e compensado aeronáutico com base em um projeto italiano. O mais inusitado é o local onde ocorre todo o processo: o quintal da própria casa, na Quadra 29 do Park Way. É lá que o piloto passa horas a fio a cortar, serrar, colar, parafusar e, aos poucos, dar vida ao aeroplano. A primeira viagem a bordo do Whisky IV está prevista para 2015. Jorge não será o único tripulante. A mulher dele, Cynthia Maria da Silva, 56 anos, que fez parte da primeira turma de mulheres da FAB, vai encarar a aventura ao lado do marido.

VEJA FOTOS DO AVIÃO!

Ao saberem da façanha, muitos acharam loucura a ideia da construção do avião “caseiro”, até porque, na Academia da Força Aérea, ninguém aprende noções básicas de como montar aeronaves. Ele foi induzido pela curiosidade. Tornou-se autodidata depois de comprar livros especializados e se tornar sócio da Associação Brasileira de Aviação Experimental. Enquanto a maioria estranhava a decisão de Jorge, Cynthia o apoiava incondicionalmente. Tanto que ela foi a responsável por convencê-lo a mudar o projeto inicial da aeronave. “Eu queria que fosse apenas de um lugar. Mas ela me obrigou a fazer de dois. E assim foi feito”, contou o piloto, que perde a noção de tempo quando entra no escritório. “Eu não sinto ciúmes, nem o questiono. É um momento dele. Ele é determinado, persistente. É admirável o que ele está fazendo”, reconhece a paulistana, que também entrou para a reserva.

No quintal de casa, ele passa horas trabalhando na aeronave(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
No quintal de casa, ele passa horas trabalhando na aeronave (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Nos cinco anos entre o início do projeto até hoje, Jorge conseguiu erguer 80% do monomotor. Nesse momento, está trabalhando a cauda da aeronave. Está mais tranquilo, porque já passou pela fase mais complicada: a montagem das asas. “Essa é a parte mais difícil, porque as asas são a alma do avião. Se elas ficarem tortas, a aeronave não voa e elas podem quebrar e se perder. Por isso, elas são essenciais”, salienta Jorge. O último passo será a instalação do motor aeronáutico do Whisky IV (veja Ficha técnica) e a pintura. A cor já foi escolhida: amarela. “Para mim, fazer meu próprio avião não é uma obrigação, mas lazer, por isso, eu não corro com o tempo”, conta. Todo o processo segue acompanhado por um engenheiro aeronáutico, como mandam as normas da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Para conseguir pilotá-lo, é preciso ainda homologar o monomotor perante o órgão federal.

Jorge começou a sonhar alto ainda na adolescência. Os aviões que decolavam da antiga Base Aérea de Cumbica chegavam a passar sobre as residências próximas do hangar, em Guarulhos, São Paulo. Ao arranhar o céu e passar rente ao telhado das casas, o então adolescente mirava as aeronaves e chegava a acenar para os tripulantes. “Os pilotos davam tchau para a molecada e nós, inclusive eu, respondia com o mesmo sinal”, lembra-se. “Então, desde que me entendo por gente, eu gosto de aviões”, frisou.

Aos 12 anos, o paulista visitou uma exposição ao lado da escola. Recebeu um puxão de orelha de um militar ao tocar em um dos helicópteros. “Levei uma bronca, porque eles haviam isolado o local justamente para que ninguém tocasse nele”, contou. O coronel não sabia, mas, 30 anos depois, aquele mesmo helicóptero seria uma das aeronaves que ele usaria às tantas para o trabalho militar. “Foi uma surpresa. Só soube confirmar isso por causa da matrícula do helicóptero, que era a mesma”, recordou, ao mostrar uma foto do modelo guardada em um dos álbuns de recordações daqueles tempos de farda.

Missões

Jorge conseguiu reunir histórias marcantes, durante as quase quatro décadas sob o comando de aviões e helicópteros. No currículo, acumulou operações de salvamento e buscas. “Perdi as contas de quantos apoios eu atuei.” Algumas, com finais felizes. Outras, tristes, que ele tenta apagar da memória, como a morte de Ulysses Guimarães. O homem que se opôs à ditadura militar e lutou pela redemocratização do Brasil desapareceu em 1992 depois de sofrer um acidente aéreo no litoral carioca. Até hoje, ninguém sabe do paradeiro do corpo do advogado e político. No entanto, a morte dele foi oficialmente reconhecida. “Quando fomos às buscas, já sabia que ele não sobreviveria, porque o helicóptero havia caído no mar à noite em meio a um mau tempo”, explicou.

O coronel diante da aeronave que pilotava quando na ativa(foto: Arquivo Pessoal)
O coronel diante da aeronave que pilotava quando na ativa (foto: Arquivo Pessoal)


Cerca de 10 anos antes do desastre, Jorge havia participado de duas missões na Serra do Cachimbo, no sul do Pará. Atendeu em dias seguidos duas ocorrências parecidas. Ambas ocorreram quase no mesmo ponto. Os pilotos de dois aviões de pequeno porte haviam aterrissado sobre árvores da região após falhas mecânicas. “As pessoas trabalhavam com garimpo. Foram três horas de voo de helicóptero até o acidente. Naquela época nem tinha GPS”, detalhou Jorge. Foi do alto, que ele e outros militares que atuavam nas buscas avistaram a aeronave. Todos os tripulantes estavam bem. “Voltamos para lá no dia seguinte. O cara tinha pousado também nas árvores. Resgatamos duas pessoas, que sobreviveram. Eles abraçavam a gente para agradecer, quando ainda estávamos voltando para a base.”

Em tempos de paz, esse é o trabalho de pilotos de avião da FAB, ajudar em causas civis. Além de dar apoio aéreo, os militares da corporação também são chamados para atuar em casos de acidente e desaparecimento de embarcações. Jorge morou nos quatro cantos do Brasil até entrar na reserva. “Tinha uma vida nômade. Nunca ficava em um lugar por muito tempo”, disse. Ele já morou em cidades como Natal, Recife e Santos. Antes de se fixar em Brasília, Jorge serviu na capital do país, em 1997. Um ano depois, acabou transferido para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Não tardou e, em 1999, ele estava de volta para a cidade que o acolhe até hoje.

Jorge Canto com o modelo de aeromodelismo que construiu(foto: Arquivo Pessoal)
Jorge Canto com o modelo de aeromodelismo que construiu (foto: Arquivo Pessoal)
Material

escasso

Até a década de 1920, a maioria dos aviões eram feitos de madeira. Com o passar do tempo, essa matéria-prima se tornou escassa e cara. Hoje, poucos são construídos com o material. Um dos modelos mais conhecidos da década de 1930 é o Mosquito, apelidado de Maravilha de Madeira. Ela foi uma das aeronaves mais famosas da Segunda Guerra Mundial. Praticamente construída com madeira, o avião foi projetado para atuar como bombardeiro leve, reconhecedor fotográfico, caça diurno e noturno, avião antissubmarino e até correio.


Ficha Técnica
Aeronave: Whisky IV
Origem: italiana
Envergadura: 8m
Comprimento: 5m
Peso: 600kg
Autonomia (voar sem precisar abastecer): 5 horas
Velocidade máxima: 200km/h

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

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