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Estado de Minas

Rolimã (05/08/2007)


postado em 13/08/2007 14:10

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
AMOR, ESTRANHO AMOR

Há quem não consiga vislumbrar o horizonte sem que ele fique esmaecido pelo pára-brisa. Para esses, o sonho do carro se transforma em moto-contínuo, atropela a dignidade e submete a auto-estima a humilhações e provas de freak-show, com intuito de promover terceiros na busca do automóvel. Doutor em estudos da subjetividade, o psicólogo Bruno Vasconcelos de Almeida é professor dos cursos de psicologia e comunicação da PUC Minas e analisa o vínculo das pessoas ao veículo de maneira crítica, porém perspicaz, e cita o historiador francês Jorge Duby, autor da História da vida privada: “O sujeito acorda, entra no carro e continua sonhando”.

SOFRER
Pelo direito de sonhar, muitas pessoas têm cometido atrocidades acordadas. Em Curitiba acontece a promoção Loucos por um Hotswagen. Até o início de março, mais de 2 mil pessoas enviaram frases, de até três linhas, sobre o que fariam para ganhar um Volkswagen Fusca tunado – isso mesmo: um Fusca! A organização selecionou as 10 melhores e eles têm que cumprir as promessas, em uma série de desafios exibicionistas e até masoquistas.

NO PÊLO
Um candidato (foto acima) ficou durante 48 horas dentro de um Fusca, na calçada da Boca Maldita, Região de Curitiba, com os vidros abertos, suportando o frio. Outro tunou a carroça e arrancou com ela no autódromo da capital paranaense. Liziane Kupicki raspou seus longos cabelos e doou os cachos para uma peruca. Há ainda um que andará de Matinhos, no litoral do Paraná, até Curitiba, e outro que promete encerar e polir um Fusca, usando apenas um cotonete.

NA BOCA
(foto: Marlos Ney Vidal/EM)
(foto: Marlos Ney Vidal/EM)
Em Belo Horizonte, 14 pessoas se dispuseram a beijar um Renault Logan para tentar ficar com ele (à esquerda). O método foi parecido e a promoção foi da Concessionária BH France, recém-inaugurada, que usou a estratégia para se promover. No corredor do Shopping Cidade, os candidatos beijaram o carro da manhã de quinta-feira até a tarde de sábado. A última a cair levou o carro para casa.

NA PELE
Uma mulher promete raspar o cabelo, vestir-se somente com um saco de lixo e andar pelo Centro da capital gritando que é louca por um Fusca. O exibicionismo continua com a intenção de uma candidata que diz que vestirá um maiô, meias rendadas e botas, para vender um jornal por cinco horas. Outros dois se tatuarão para tentar receber o Hotswagen.

MICO
Tudo isso por um Fusca de 1964, com motor 1.9 de 160cv de potência. O investimento é de cerca de R$ 100 mil, em parafernália de som, capotaria e todos os detalhes que fazem o repertório dos hot rods. Porém, quem vencer terá que cumprir uma série de compromissos com o Fusca, inclusive levá-lo a diversos eventos até o fim do ano, sempre guinchado. Mais: só poderá vender o carro daqui a três anos. Difícil vai ser achar quem se disponha a pagar o valor do investimento, tanto financeiro quanto físico e psicológico.

SEM RUMO
Ao saber das peripécias de 14 mineiros e 10 paranaenses para conseguir um automóvel, Almeida vê uma perda da referência social. “A relação produção/consumo, em vez de agenciar trocas, tem levado a problemas”, reflete o psicólogo. Ele vê a influência dos reality shows nos formatos dessas provas, mas destaca o papel da mídia em geral. “A publicidade é concentrada em alguns produtos, como os carros, que têm imenso poder de atingir e persuadir a população”, destaca Almeida.

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