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Estado de Minas

Transoto - Memórias dos leões do asfalto


postado em 08/04/2012 12:45

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)
 

 

Certos veículos jamais deixarão de existir no imaginário das pessoas. Principalmente se transportaram diferentes gerações, indo muito além do burocrático trajeto casa/trabalho/casa. Passageiro ou mero espectador, era praticamente impossível deixar de notar, observar ou até mesmo se assustar com o súbito rangido do motor – sempre acompanhado de para-choques intimidadores – da fantástica frota de caminhões e ônibus da extinta Transoto. Numa época em que o fretamento de passageiros não era delimitado pela economia de combustível, nem pelo ano de fabricação e a baixa idade média, os pesados de pintura verde-musgo (muitas vezes confundido com preto) se destacavam no trânsito de Belo Horizonte. Como se fossem leões no asfalto.

 

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)


CULT

Em plena era de redes sociais, a empresa tornou-se uma espécie de referência cult. Apaixonados por transporte resgatam o nome Transoto na web, mas é nos acervos pessoais que grande parte da história vive registrada. A começar pelas fotografias, nas quais é possível ver e rever os primeiros modelos que deram vida à emblemática companhia. Quem tem menos de 50 anos, por exemplo, dificilmente vai se lembrar do Carbrasa chassi Scania B-75, fotografado pelo ilustre colecionador de Itabira Augusto Antônio dos Santos, lá nos idos dos anos 1960. Um dos primeiros ônibus da frota, o Carbrasa também deu início à peculiar forma da firma identificar os veículos com prefixos compostos por uma sequência de duas letras e dois números (exemplo: MO-01, de micro-ônibus número 1).

 

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)


PIONEIROS

Nos anos 1970, passou a ser usado na frota o Nielson Diplomata B-76. Montado sobre a mesma mecânica do Carbrasa – o que mais tarde confirmaria a preferência da empresa pela Scania –, o imponente “busão” se diferenciava dos demais por outras duas características: o assoalho em dois níveis e as grades sobre as últimas janelas. Eram quatro unidades, que ficavam quase sempre enfileiradas numa das garagens da Transoto, na Avenida Antônio Carlos. Pena que aquele terreno tenha desaparecido com as obras de ampliação da via, prestes a receber, ironicamente, o BRT (ônibus de trânsito rápido, traduzindo do inglês), algo que contraria totalmente a lógica dos serviços de fretamento. No Barreiro havia outro QG, bem próximo das instalações da Mannesmann, maior contratante dos serviços da empresa.

 

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)


ERA CIFERAL

A partir da aquisição dos Papo Amarelo B-75 e Lider chassi B-111, provavelmente usados, a Transoto deu início a uma segunda relação de fidelidade, dessa vez com a encarroçadora carioca Ciferal, que permaneceu em suas linhas até a década de 1990, com o Dinossauro BR-116. Desenvolvido para atender, principalmente, grandes companhias, como a Cometa e a Itapemirim, o rodoviário – que mais tarde daria origem ao “rei das estradas” CMA Flecha Azul (esse rende outra história...) – se destacava pelo estilo nitidamente inspirado nos “busões” norte-americanos da GM. A altura superior à dos ônibus de então e as poltronas de couro vermelho, no padrão Cometa, eram outro charme do modelo que, nos últimos anos de operação da companhia, ganharam tratamento especial, com pinturas de traços próprios para cada unidade.

 

(foto: Revista Transoto/Divulgação)
(foto: Revista Transoto/Divulgação)


A ÁGUIA

Independentemente da cor, a águia sempre esteve presente como logomarca da Transoto. Associada às cores branca, amarela e preta dos últimos Dinos, marcou a imagem da frota com brilho por muito tempo. Mas como seria a pintura da frota da Transoto se ela existisse hoje? Uma possível resposta está no transotho.blogspot.com.br, homenagem em forma de blog na qual um fã da empresa exibe diferentes desenhos da frota, cuja pintura remete ao famoso verde-musgo e aos para-choques listrados de preto e amarelo. O curioso é que, na proposta anônima (o blog não é assinado), não há Scania na frota: somente caminhões e ônibus Agrale e Mercedes-Benz.

 

(foto: Luiz Alberto Pimenta/Arquivo Pessoal)
(foto: Luiz Alberto Pimenta/Arquivo Pessoal)

(foto: Augusto Antônio dos Santos/Arquivo Pessoal)
(foto: Augusto Antônio dos Santos/Arquivo Pessoal)
 


CARGA PESADA


Mas nem só de grandes ônibus viveu a Transoto. De caminhões também. Internauta num fórum de veículos antigos, Jorge relembra os caminhões GMC, International e Scania que a empresa operou a serviço do transporte pesado da Mannesmann, todos resgatados em imagens produzidas pela própria Transoto numa revista de divulgação. “No início dos anos 1960, trafeguei muito entre o Rio e Belo Horizonte, e tive oportunidade de ver, além dos ônibus, os caminhões da Transoto rodando pela antiga BR-3. Todos verde-escuros com as letras da empresa em amarelo, vários GMC com seus famosos motores diesel chamados de marítimos e outros tantos International L 200 com motor Cummins diesel. Eram lindos e muito bem cuidados. Deixaram saudade!”, conta o entusiasta. Pintados de vermelho no chassi, dianteira ou quebra-mato, os “Super Transoto” deixavam claro como era a manutenção da frota. Detalhe que não passa batido no acervo de fotos oficial, cedido pelo “papa” das fotos de ônibus da RMBH, Márcio Renato Coelho.

 

(foto: Maurício Borboleta/Divulgação)
(foto: Maurício Borboleta/Divulgação)


SOBREVIVENTE

Mais de duas décadas depois da extinção da empresa, no início de 1990, a frota simplesmente desapareceu das ruas belo-horizontinas. Provavelmente virou sucata, à exceção de pelo menos um dos Ciferal Lider Scania B-111. Fabricado em 1970, o exemplar prateado foi descoberto por Moisés Magno numa garagem do Bairro Betânia e, pelo excelente estado de conservação, aparenta ser de um colecionador de ônibus. Basta notar que o intimidador para-choque frontal e o desenho da águia na traseira foram mantidos. Uma respeitável e digna memória do que um dia foi um império nos transportes.

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